Por que alteraram os 10 mandamentos?

Os mandamentos divinos aparecem em diversos trechos da Bíblia, por exemplo: Ex 20 e Dt 5.
Repare que os textos originais não indicam onde começa e termina cada mandamento. A ordem dos mandamentos utilizada pela Igreja Católica é a mesma definida por Santo Agostinho já no século IV.

Após séculos e séculos de utilização deste formato, então, apenas 1200 anos após isso, surge o movimento protestante e passa a utilizar “Não farás escultura nem imagem alguma…” como segundo mandamento somente com o intuito de maliciosamente atacar o uso de imagens no culto, pois a negativa sobre adorar outros deuses já estava subentendida no fato de que devemos amar a Deus sobre todas as coisas:

Deus pronunciou todas estas palavras: ‘Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante dos ídolos, nem lhes prestarás culto, pois eu sou o SENHOR teu Deus, um Deus ciumento.” (Ex 20, 2-5)

É claro, simples e evidente que o sentido de toda esta afirmação é somente um: “Amar a Deus sobre todas as coisas”. Qualquer estudo sério do pentateuco nos faz entender que os israelitas estão saindo do Egito, onde viviam há quatrocentos anos em uma cultura que atribuía às imagens as qualidade e o poder dos deuses que representavam. Ou seja, a proibição de imagens era muito útil naquele contexto para que eles pudessem “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Todas as coisas” já inclui imagens de deuses. Então, separar a adoração a ídolos através de imagens esculpidas em outro mandamento é desnecessário, pois além de redundante, também cria uma mandamento desatualizado, pois em nossa cultura vemos muitas outros fatores que interferem no amor que o homem deve ter a Deus sobre todas as coisas: poder, fama, dinheiro, sexo, drogas etc.

Repare no que Deus diz: 1) “eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito”, 2) “Não terás outros deuses além de mim”, 3) “Não farás para ti imagem esculpida” e 4) “Não te prostarás diante de ídolos, nem lhes prestarás culto”. Com a lição aprendida pelos israelitas, vemos que Deus nos manda amá-lo antes de tudo.

Uma vez entendido que a mensagem é sempre a mesma “Amar a Deus sobre todas as coisas”, resta afirmar que o mandamento não afirma que todas as imagens são malignas, muito menos proíbe os fiéis em utilizá-las de maneira apropriada. Comprovamos isso estudando a construção do tabernáculo de Israel, quando Deus ordena a confecção de dois querubins de ouro:

“Para as duas extremidades do propiciatório fez dois querubins de ouro, de ouro polido, um querubim na extremidade de um lado e outro querubim na extremidade do outro lado. Os querubins tinham as asas estendidas por cima e encobriam com elas o propiciatório; estavam um diante do outro, voltados para o propiciatório” (Ex 37,7-9).”

Em outro trecho, podemos ver que esculturas de anjos foram construídas para decorar o templo. O que jamais teria ocorrido se a proibição divina incluísse imagens de qualquer natureza:

“No Santo dos Santos mandou erigir dois querubins esculpidos, revestidos de ouro. A extensão total das asas dos querubins era de dez metros. Uma asa do primeiro querubim, de dois metros e meio, tocava a parede da sala, e a outra asa, de dois metros e meio, tocava a asa do outro querubim. Do mesmo modo, uma asa do segundo querubim, de dois metros e meio, tocava a parede da sala, e a outra asa, de dois metros e meio, tocava a asa do outro querubim. As asas estendidas daqueles querubins mediam, pois, dez metros. Eles estavam de pé com os rostos voltados para o templo. Mandou fazer a cortina de púrpura roxa e vermelha, de carmesim e de linho fino e adorná-la com figuras de querubins” (2Cr 3,10-14)
Também havia uma enorme variedade de imagens no Templo de Salomão e nos diversos templos onde foi adorado o Deus de Israel. No caso de salomão, Deus não havia lhe dado a ordem de confeccionar imagens para o templo. Mesmo assim, estas imagens não lhe foram ofensivas. Em outra situação, Deus ordena expressamente que se confeccione uma imagem de uma serpente, através da qual muitas pessoas seriam curadas. O Novo Testamento, inclusive, traça um paralelo com a salvação através de Cristo: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o que nele crer tenha vida eterna” (Jo 3,14-15)
É nítido o fato de que o problema não é o uso de imagens, mas a adoração de falsos deuses. Seja no caso dos israelitas através de imagens, seja no caso do homem contemporâneo através de drogas, jogos, sexo, poder, fama etc.
Percebe-se que a criação deste mandamento por parte dos protestantes apresenta-se completamente ilógica.
Para que a lista não terminasse com onze mandamentos, os protestantes, então, juntaram os dois últimos mandamentos em um só incluindo a mulher entre propriedades e pertences. Esta alteração é grave porque rebaixa a dignidade da mulher, do matrimônio e da monogamia, que prevalescem no Novo Testamento.
Por que modificar uma convenção utilizada há quase dois mil anos? Ao que me pareceu, dois motivos:
- incentivar as pessoas a se colocarem contra a Igreja. Algo que acontece até os dias de hoje, pois vejo muitas igrejolas neopentecostais se preocuparem mais em criticar a Igreja do que divulgar a mensagem cristã;
- defender os próprios interesses, por exemplo, o de desconsiderar o vínculo eterno do matrimônio.

Intolerância religiosa

Dia 21 de janeiro, dia mundial da religião e dia nacional de combate à intolerância religiosa, desejo dedicar a minha colaboração a esta importante conscientização, através deste breve texto.

O Estado brasileiro é laico, óbvio. Tão óbvio quanto afirmar que laicismo não deve ser confundido com antiteísmo. A laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, mas no respeito a eles. O contrário deste respeito é a intolerância, que  leva muitos cidadãos, em sua maioria religiosos, a se esconderem por trás desta prerrogativa para praticar a perseguição religiosa, seja através do pedido de retirada de símbolos religiosos das dependências do judiciário, seja pela extinção de feriados religiosos, nomes de ruas e de cidades e seus padroeiros.

O fato de o país ter uma formação histórico-cultural cristã explica a existência de tais símbolos. O que precisa ser combatido, ao invés disso, é a intolerância religiosa que se expressa justamente quando alguém se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheios, o que inclui a vontade de eliminar símbolos religiosos, e até mesmo as atitudes ofensivas e depreciativas expressas através de comentários, em geral, de protestantes neste blog.

O fato de o Estado ser laico não significa que nele não possa haver expressão religiosa, mas sim que todas as religiões que existem nele devem ser respeitadas, sobretudo com suas formas de expressão. Querer sustentar que o estado é laico com o objetivo de retirar os santos e crucifixos ilustra o oportunismo daquele que possui dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa.

A recusa à existência de Deus, ou a qualquer religião, parece ter originado a nova modalidade religiosa: o antiteísmo. Se por um lado temos o ateísmo como posição filosófica onde não se crê em divindades, vemos crescer a vertente antiteísta: a religião da não-religião, onde aquele que professa este tipo de crença não é o representante de Deus, mas o próprio ser superior. A nova religião tem a triste característica das religiões contemporâneas, ainda pouco amadurecidas, permeadas pela arrogância e prepotência de seus seguidores, sendo semelhante no desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem a mesma linha de pensamento.

Então, a eliminação de símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada. E o Estado, obviamente laico, não pode optar por uma religião em detrimento das outras. A solução é tolerar e conviver com todas as manifestações religiosas.

Além disso, se fosse possível ser feita uma escolha, não poderia ser pela visão minoritária. Obviamente, isso seria uma afronta aos direitos da minoria. Afronta semelhante à tirania da minoria que se transforma em vítima, ao invés de evoluir o pensamento de forma a entender que os símbolos que já estão por aí nas repartições públicas, nos feriados, nos nomes de ruas e de cidades, incorporando-se ao cotidiano popular de homens, mulheres e crianças, são consequência de um longo legado histórico dos católicos que começaram este país. Querer retirar os símbolos religiosos trata-se, portanto, de uma afronta ao direito do católico de conviver com este legado que concederam ao país, uma afronta a história de nosso país, e consequentemente nossa.

Retirar símbolos é fazer com que o Estado escolha por quem não crê. Como dito no início, a laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados, como se o espaço público fosse reservado a quem se incomoda com a fé alheia.

Vale lembrar que a existência destes símbolos não fere o laicismo do Estado, pois não interferem na liberdade religiosa. A motivação em retirá-los mostra-se, por tudo isto, oportunista e ilógica.

Diga NÃO à intolerância religiosa!

Jesus, o primogênito

O Natal se aproxima! Nasceu o tão esperado Messias, salvador da humanidade! “E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2, 7)

Muitas pessoas baseiam sua crença de que Jesus teve irmãos no fato de estar escrito seu filho primogênito. Mas o objetivo é apenas, claramente, submeter a Bíblia à crença, ao invés de buscar o sentido real da Sagrada Escritura.

É importante destacar que todo texto bíblico possui o sentido literal e o sentido espiritual. Aquele que se debruçar sobre o texto sagrado e analisar seu conteúdo levando em consideração apenas o sentido literal, não chegará a compreendê-lo.

E qual o sentido espiritual do trecho “seu filho primogênito“?
Continue a leitura por alguns versículos subsequentes e descobrirá uma chave de interpretação muito importante, eu diria até essencial. “Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor.“ (Lc 2, 22-23)

Podemos perceber que a mensagem que São Lucas quer transmitir não é que Jesus foi o primogênito de outros irmãos. De fato, este é o sentido literal, mas conforme comentei em Jesus teve irmãos?, esta interpretação apenas literal não está em coesão com outros trechos bíblicos.

Então para podermos entender a mensagem de São Lucas, precisamos recorrer ao sentido espiritual, pois a hermenêutica bíblica só nos permite elaborar alguma conclusão através de uma interpretação que não nos leve a cometer heresia – não podemos interpretar a Bíblia se esta interpretação for contra algum trecho dela mesma.

Pois bem, São Lucas precisa anunciar que Jesus é o Messias. Para fortalecer seu argumento perante os judeus, ele mostra que Ele foi circuncidado conforme a Lei de Moisés, pois era descendente da tribo de Judá, da descendência de Davi, portanto, o Messias citado nas profecias, filho de Deus. Também por este mesmo motivo (anunciar que Jesus é Deus), São Mateus começa o Evangelho citando a genealogia de Cristo. Inclusive, repare que São Mateus  quando escreveu: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo.” não citou a existência “irmãos” como havia feito em alguns versículos anteriores.

Um outro ponto que precisamos destacar seguindo a chave de interpretação que São Lucas nos dá ao utilizar a palavra “primogênito” é que, para o Antigo Israel, a transmissão da imagem divina se dá através do primogênito. Perceba que em Gn 5, 3 Adão gera um filho “a sua semelhança, como sua imagem”, chamado Set. Nos versículos seguintes, de 6 até 32, repare que o escritor só se referiu aos primogênitos: Set gerou Enós [e outros filhos], Enós gerou Cainã [e outros filhos], Cainã gerou Malaleel [e outros filhos], Maleleel gerou Jared [e outros filhos], Jared gerou Henoc [e outros filhos], Henoc gerou Matusalém [e outros filhos], Matusalém gerou Lamec [e outros filhos], Lamec gerou Noé [e outros filhos].

A intenção do autor de Gênesis ao construir a genealogia de Noé (Gn 5, 6-32) citando a primogenitura de sua descendência, é mostrar o motivo pelo qual Noé “encontrou graça aos olhos de Deus” (Gn 6, 8 ) e foi escolhido para fazer uma aliança (Gn 6, 18 ). E através desta aliança com Noé, Deus salvou a humanidade.

Concluímos então que São Lucas, ao anunciar a boa-nova, de forma inteligentíssima utiliza a palavra primogênito. Através de uma simples palavra, ele anuncia que Jesus é a imagem de Deus, o Messias da tribo de Judá, primogênito da descendência de Davi, salvador da humanidade através de uma nova aliança, semelhante à aliança com Noé. Esta é a boa-nova do nascimento de Jesus, o primogênito: Ele é Deus e nos salva através de uma nova e eterna aliança.

Mas, se você prefere acreditar que a mensagem de São Lucas é afirmar que José e Maria mantiveram relações sexuais, o problema é todo seu, literalmente…

Qual a diferença entre uma semente de melancia, uma semente de mamão e um embrião humano?

Para alguns a diferença é óbvia, mas, por incrível que pareça, há quem se confunda…

Uma semente de melancia, caso devidamente cultivada, originará um pé de melancia. Uma semente de mamão, quando germinar se tornará um pé de mamão. Isso é verdade tanto quanto uma semente de melancia jamais se tornará um pé de mamão e uma semente de mamão jamais se tornará um pé de melancia.

É uma constatação óbvia, mas há quem se confunda…

E o que é necessário para a semente germinar? Por exemplo, no caso da melancia, um mínimo de cuidado, a começar pelo cultivo do solo. Uma semente que não encontrar o mínimo necessário, não chegará a ser um pé de melancia, mas independente disso, a sua essência é ser melancia. Assim também acontece com a semente de mamão: sua essência é ser mamão independente das condições de plantio; independente de ela vir a se tornar um pé de mamão.

Mas e o embrião humano?

Analogamente, podemos afirmar que o embrião humano possui a essência de ser humano. Da mesma forma que uma pessoa necessita basicamente de tempo, oxigênio e nutrição para crescer e sobreviver, assim também ocorre com o embrião humano.
Creio que até aqui todos concordariam comigo, mas curiosamente existe quem acredite que o embrião humano não é gente. Por isso existe gente que se confunde… Então, se eu não lhe retirar o tempo (não o matando), não lhe retirar o oxigênio e não lhe retirar a nutrição, ele vai crescer e se tornar o quê? Uma melancia ou um mamão?

Parece óbvio, mas ainda tem gente que se confunde…

TODAH – antepassado litúrgico

Ainda existindo a Didaqué, talvez o antepassado litúrgico mais notável da Missa seja a todah do antigo Israel. Assim como a palavra grega Eucaristia, o termo hebraico todah significa “oferenda de agradecimento” ou “ação de graças”.

A todah começa com a recordação de uma ameaça mortal e em seguida celebra a libertação divina do homem daquela ameaça. É uma forte expressão de confiança na soberania e na misericórdia de Deus.

O salmo 69 é um bom exemplo: a súplica insistente pela libertação (“Ó Deus, salva-me”) é, ao mesmo tempo, celebração da libertação futura (“Poderei louvar o nome de Deus com um canto… Pois o Senhor ouve os pobres.”).
Mas o exemplo clássico da todah é o salmo 22, que começa com: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, que o próprio Jesus citou quando agonizava na cruz.
(inclusive podemos notar que Jesus demonstrou sua esperança confiante na salvação ao fazer referência a este cântico, que começa com um brado de desamparo e termina com uma triunfante nota de salvação. Definitivamente não foram palavras de medo.)

As semelhanças da todah com a Eucaristia ultrapassam o sentido comum de ação de graças, ambas apresentam a adoração por meio de palavra e refeição. Além disso, a todah, como a missa, inclui uma oferenda não-sangrenta de pão sem fermento e de vinho. O mais curioso é que os rabinos antigos fizeram uma profecia significativa, do ponto de vista litúrgico, a respeito da todah: “No tempo [messiânico] que há de vir todos os sacrifícios cessarão, exceto o sacrifício da todah. Esse jamais cessará em toda a eternidade.” (Pesiqta, 1, p. 159)

Esta semelhança não é mera coincidência!