O mundo foi criado em 6 dias de 24 horas?

Caso positivo, como seria possível que já houvesse luz, dia e noite, antes da criação do sol?

Esta questão causa, em muitas pessoas, diversas dúvidas que parecem decisivas contra a autoridade dos livros sagrados. Mas na verdade, trata-se apenas de um problema mal formulado.

A dificuldade surgida no caso se resolve mediante a observação de que embora a Bíblia seja um livro divino, foi redigida por autores humanos. E Deus se dignou a utilizar as faculdades intelectuais dos autores (chamados hagiógrafos).
Portanto, a Sagrada Escritura foi composta conforme as regras usuais no período desde o século XIII a.C. (Moisés) até o século I d.C. (São João Evangelista).

Torna-se evidente, desta forma, que não se pode perceber o significado autêntico das páginas sagradas sem se aplicarem ao texto estudado os critérios de interpretação usuais na análise de qualquer documento da literatura humana. Dentre os critérios estão: a mentalidade do autor, a época em que escreveu, a verificação das fontes que usou, o círculo de leitores que teve como objetivo etc.
A exegese bíblica não dispensa esses recursos usuais de qualquer exame literário. Portanto, não basta simplesmente a piedade para se entender a Bíblia, mas requer-se um pouco de cultura humana.

Tendo em vista estas premissas, avançemos à questão da criação do mundo.
Verificamos logo que a Bíblia em diversas passagens apresenta a narrativa da criação:
- Gn 1,1-2,4a; 2, 4b-3,24;
- Pr 8,25-31;
- Jó 38, 4-35;
- Sl 103
Contudo, em um só trecho, isto é, em Gn 1,1-2,4a, descreve a ação de deus dentro do esquema de “seis dias de trabalho e um de repouso”, designado pelo termo <<hexaémeron>> (do grego, hex=seis; heméra=dia) que toca a essa passagem.

Ora, isto já chama a atenção do crítico, pois significa que o trecho  de Gn 1,1-2,4a é um bloco literário independente das passagens que tratam do mesmo assunto. Demonstra, justamente, obedecer a regras de estilo e finalidade próprias.
Portanto, para averiguar se a Bíblia realmente ensina a criação do mundo em seis dias, é necessário aplicarmos nossa atenção à análise do <<hexaémeron>> para depois formular a sua genuína interpretação.

Apenas para destacar: ao escrever “genuína interpretação”, me refiro às falhas derivadas de interpretações que dão como doutrina da Bíblia os dizeres de Gn 1,1-2,4a sem levarem em conta os textos bíblicos paralelos referentes à criação do mundo nem as regras de estilo esquemático e simbolista do <<hexaémeron>>.

Pois bem, quatro pontos merecem destaque para chegarmos à conclusão de que o trecho de Gn 1,1-2,4a foi redigido dentro das regras do estilo de narrativa <<hexaémeron>>. São eles:

) O Criador não é descrito antropomorficamente, como um Jardineiro, um Cirurgião, um Arquiteto, ou um Alfaiate, diferente da passagem posterior: Gn 2, 7.8.21; 3,21.
O autor dá a entender que, unicamente pela expressão de sua vontade ou pela sua Palavra, o Senhor Deus comunica existência a todos os seres. Tais características manifestam uma fase bem amadurecida da mentalidade de Israel.

) Toda a narrativa se dispõe dentro dos moldes de “sete dias”, que parecem corresponder a sete estrofes de um poema. Essas estrofes, exceto apenas a sétima, repetem com certa variabilidade os sete seguintes elementos:

- ordem do Criador: “Disse Deus: Faça-se…
- cumprimento da ordem: “e fez-se assim
- descrição da ordem: “e Deus fez o firmamento … dois luzeiros … E a terra produziu erva
- aprovação da obra: “Deus viu que era bom
- imposição do nome: “Deus chamou a luz de Dia… o firmamento de céu… o seco terra…
- bênção divina
- indicação do dia: “Houve uma tarde e uma manhã; foi o 1º, 2º, 3º dia…

) O simbolismo dos números ou o emprego místico e artificioso de certos trechos domina todo o texto do <<hexaémeron>>.

Sabemos que para os antepassados, os números muitas vezes não representavam quantidades, mas qualidades. Os números que gozavam de maior estimação eram 3, 4, 7(=3+4), 12(=3×4) e 10. Cada um deles exprimia seu modo de perfeição.

Eis como o emprego artificioso dos números de manifesta no <<hexaémeron>>:
A distribuição de toda a narrativa em 6+1 dias significa que uma obra foi iniciada(=6) e, por fim, consumada(+1). O hagiógrafo pôs em relevo o número 7 para inculcar que a obra havia sido implementada de forma perfeita, coisa que nem sempre acontece nos empreendimentos humanos.

O esquema 6+1 pode ser observado também em Jó 5,19 e Pr 6,16.

Além disto, os números citados anteriormente são, no <<hexaémeron>>, empregados e realçados de maneira que bem se mostra intencional:
1 – um só Criador: Deus (da unidade procede a multiplicidade).
2 – os pares “céu e terra”, “informe e vazia”, “luz e trevas”, “tarde e manhã”, “terra e água”, “águas inferiores e águas superiores”, “luzeiro maior e luzeiro menor”.
3 – três regiões: céu, água e terra;
    três espécies de plantas: ervas, cereais e árvores frutíferas;
    três espécies de animais aquáticos: montros marinhos, peixes, voláteis (estes eram julgados habitar entre as águas inferiores e as superiores);
    três espécies de animais terrestres: domésticos, répteis e selvagens;
    três categorias de astros: sol, lua e estrelas, com um conjunto de três funções;
    três imposições de nome 1,5.8.10
    três bênçãos: 1, 22.28; 2,3.
6 – seis dias de trabalho.
7 – sete dias em toda a narrativa;
    sete aprovações;
    sete vezes “assim se fez”;
    sete fórmulas que se repetem em toda a narrativa.
10 – dez vezes “Deus disse…”.
12 – doze são as ações atribuídas a Deus em toda a obra da criação: criar, pairar, dizer, ver, separar, nomear, fazer, colocar, abençoar, consumar, repousar-se, santificar.
     doze vezes é mencionada a água (elemento importantíssimo em Gn 1)

) Confirmamos a composição do estilo <<hexaémeron>> em Gn 1 caso comparemo-lo com os outros trechos que também narram a criação do mundo. Embora também eles citem os mesmos elementos mencionados pelo <<heraémeron>> (caos inicial, estrelas, águas e terra, animais irracionais e homem), de modo nenhum referem o esquema de seis dias e a ordem de aparecimento das criaturas que ocorrem em Gn 1.
Ora, se esse esquema e essa ordem fossem realmente históricos, é de pressupor que os outros textos os apresentassem, ou ao menos insinuassem.
Conclui-se, pois, que a moldura dos seis dias e a sucessão de obras que eles se enquadram, são mero artifício do autor do <<hexaémeron>>.

Eureca!

O exame literário acaba de evidenciar que o escritor não tinha em vista redigir um documento de caráter científico para nos instruir sobre as fases pelas quais passou o mundo na sua formação. O setor das ciências naturais ficava fora das preocupações do autor. O que lhe interessava, era apresentar o aspecto transcendente, religioso, do mundo e do homem. Para realizar essa tarefa, é claro que o escritor tinha que aludir às criaturas, mencionando as principais categorias destas, a fim de as relacionar com Deus.
Para obter o seu fim, bastava que o autor usasse da linguagem de sua época antiga; foi o que de fato fez. Vemos quão importante se torna tomarmos consciência das concepções e da nomenclatura de cosmologia dos antigos judeus, para entendermos devidamente o <<hexaémeron>>.

E quais eram estas concepções?

Os orientais costumavam dividir o universo em três regiões circulares: a dos ares, a das águas e a da terra. Para dizer que estas três regiões, com tudo que elas contêm, são obras de Deus, o autor israelita apresentou a atividade do Criador distribuída por duas séries de três dias de trabalho:
- na primeira série ou nos três primeiros dias ele quis descrever o Senhor a constituir as regiões ou os compartimentos como tais;
- na segunda série ou nos três últimos dias, mostrou o Senhor a colocar os habitantes em suas respectivas regiões.

Antes, porém, de mencionar a constituição das regiões, ou seja, antes da primeira série de três dias, o autor sagrado referiu a criação da matéria em seu estado primordial, caótico: essa matéria, diz ele, constava de uma massa de terra («a terra informe e vazia»; 1,2), envolvida de águas («abismo», «águas», 1,2), sendo isso tudo cercado de trevas (1.2).
Do outro lado, ao terminar a série dos seis dias, o escritor quis apresentar o Senhor Deus à guisa de operário que entra no merecido repouso após encerrada a sua tarefa; donde o sétimo dia da série (2,1-3).

Assim, temos o esquema seguinte:

I. Criação da matéria caótica:

(terra, águas, trevas): 1,1-2

II. Distinção das três regiões do universo:

1° dia – Região do Céu (1,3-5)
2° dia – Região das Águas (1,6-8)
3° dia – Região da Terra (1,9-13)

III. Produção dos habitantes das regiões:

4° dia – os Astros habitam o Céu (1,14-19)
5° dia – os peixem habitam as Águas (1,20-23)
6° dia – os animais terrestres e o homem habitam a Terra (1,24-31)

IV. Repouso, bênção final

7° dia — 2,1-3

Como vimos, foram os pressupostos da cosmologia judaica que levaram o hagiógrafo a apresentar a criação dentro do esquema de seis dias de trabalho e um de repouso. O escritor tinha necessariamente que recorrer a esses pressupostos, porque precisava de mencionar as diversas criaturas visíveis.
Não intencionava, porém, dar a autoridade de dogmas a tais informações cosmológicas. Sendo assim, está claro que hoje em dia, uma vez ultrapassadas as concepções de ciência dos judeus, ninguém se pode julgar habilitado a ensinar em nome da Sagrada Escritura que o mundo foi feito dentro da moldura de 3 + 3 dias.

Mais dois outros motivos (importantes, na mente do hagiógrafo) devem ter concorrido para a descrição da criação em seis dias de trabalho e um de repouso. Seriam:

a) o simbolismo do número 7, principalmente quando disposto segundo o esquema 6 + 1 (tenha-se em vista o que foi dito anteriormente);

b) o intuito de inculcar a lei do repouso semanal.
Consciente da necessidade de que o povo de Deus observasse o descanso semanal, consagrando-o ao Senhor, Moisés o formulou expressamente entre os preceitos da Lei.
Mais tarde, visando dar o máximo de autoridade a tal mandamento, Moisés, sob a moção do Espírito Santo, apresentou em Gn l, l-2,4a o próprio Deus à semelhança de Operário Modelo, pois como citado acima (no 1º ponto dos 4 destacados), o texto sinaliza ter sido redigido em uma fase bem amadurecida da mentalidade do povo de Israel, inclusive de Moisés, a respeito de Deus.

Conclui-se que o esquema de seis dias de trabalho e um de repouso, em Gn l, l-2,4a, foi influenciado pela lei do sábado já anteriormente vigente em Israel; não se julgue que, ao contrário, o mundo foi primeiramente criado em seis dias e que, por causa disto, Moisés instituiu o repouso do sétimo dia.
Afinal, estudiosos acreditam que Gênesis tenha sido redigido durante (ou após) o período denominado Babilônico, portanto, após a instituição da lei do sábado.

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