Senti a necessidade de escrever este texto por dois motivos: primeiro porque depois de breves minutos conversando com um colega de trabalho aparentemente ateu (ainda não conversei com ele sobre o assunto) senti uma pontinha de superioridade intelectual que é peculiar àqueles que negam a existência de Deus; segundo porque nunca escrevi um texto relacionado ao ateísmo, então pensei “por que não?”.
Sinceramente, sempre fico impressionado com o paradoxo de “ser ateu”. Ser ateu é duvidar de um Deus pregado pelos homens, mas eleger o próprio ego (sim, o de homem) como deus de si mesmo. E esta situação não deixa de ser curiosa, pois a razão humana só resplandece plenamente quando reconhece a sua própria contingência e se sujeita à suprema inteligência do Criador do universo.
Sendo mais claro e objetivo: talvez Freud classificasse isso como narcisismo religioso. A auto-suficiência do ego ateu está repleta de perfeição que menospreza a capacidade intelectual daqueles que possuem uma crença diferente à sua, e se revela impenetrável à luz da intelectualidade legítima, pois está fechado ao processo de cognição, de aquisição de conhecimento. Narciso só tinha olhos para a própria beleza e afogou-se em sua própria imagem. O ateu só tem olhos para o se egocentrismo e se afoga em sua própria inteligência…
Tudo bem… sendo mais claro ainda: o ateísmo está mais ligado à emoção do que à razão.
O ateísmo não se caracteriza por uma reflexão madura, pois freqüentemente demonstra ser uma escolha pré-racional, fruto do orgulho e da rebeldia da adolescência intelectual. A psicologia constata que o adolescente rejeita a autoridade para afirmar o próprio ego. Não é raro, na fase juvenil, a rebeldia se manifestar como ateísmo.
Com o tempo, o jovem pode superar esta etapa, inserindo-se como ser humano na ordem natural do mundo. Tornando-se adulto, amadurece e, às vezes, retorna à fé aprendida na infância, buscando com sinceridade respostas às questões metafísicas. Enfim, chamamos esse processo de conversão.
Mas, pode ser que o jovem não supere esta etapa e, por inércia, faça perdurar o ateísmo juvenil até a fase adulta, seja por desinteresse ou por falta de reflexão conseqüentes do egocentrismo. Estes adultos, em sua revolta anti-espiritual encaram a descrença como religião e passam a militar pela destruição da fé em Deus. Então, podemos nos deparar com frases como “Deus não existe…isso é coisa de gente fraca que precisa de um ser superior”.
Esse apostolado anti-religião se apresenta como reflexo da busca por justificativas racionais para a escolha que fizeram. Mas, essa “conclusão” da inexistência de Deus é, na verdade, o desmoronamento da idéia que o próprio ateu formulou na fase pré-intelectual: uma entidade modelada pelo próprio sujeito. Agora, podemos entender melhor como funciona o raciocínio ateu: tomar o conhecer pelo ser – “o que existe na minha mente é real, o que não existe na minha mente não é real”. Talvez esse seja o maior problema de nossos tempos, porque conduz ao relativismo, pois o conhecimento varia conforme a época, o lugar, classe social etc.
Seguindo adiante na militância do apostolado, a vaidade ateísta passa a ostentar as informações científicas e filosóficas que adquiriram nesta fase adulta. Mas, obviamente, não podem responder a questões metafísicas como: “O que existia antes do que existe?”. Ora… requer-se apenas honestidade para, pelo menos conceder à crença em Deus o benefício da dúvida.
Honestidade…Humildade…
A ciência utiliza a fundamentação experimental como forma de produzir conclusões. Mas, para efetivamente comprovar a possibilidade de produzir um design inteligente sem um designer, o cientista deveria produzir um experimento sem experimentador. Caso contrário, ele estaria pressupondo, justamente o oposto do que pretendia, pois assume a posição de Criador do seu experimento. Sim, é verdade… não existe experimento sem experimentador. E, ciência sem experimento é igual comida sem sal: não tem sabor. “O que existia antes do que existe?”
Por que ridicularizar a fé em Deus? Afinal, qual é o problema? Descobrir que Deus existe e é seu criador?
O homem que crê em Deus, embora também inclinado ao egoísmo (devido ao pecado original), aceita primeiramente a sua própria contingência: sabe-se mortal, finito e sujeito a leis morais e naturais que ele não criou e não pode alterar. Essa humildade é o adubo que ajuda germinar, pela graça, a virtude da Fé.
A Fé não é crendice, nem muito menos a ausência de dúvidas (que são inerentes à condição humana). A Fé = virtude + graça. Fé é dom gratuito de Deus: não crê aquele a quem Deus não concedeu esse favor, que tem como predisposição fundamental a constatação da própria contingência, da própria insignificância. Aquela humildade… aquela honestidade…
A graça da Fé, uma vez aceita e cultivada pela observância aos Mandamentos e freqüência nos sacramentos age eficazmente na alma suscitando as virtudes da Esperança e da Caridade. “Que conheçamos (fé), que procuremos (esperança) e que amemos a Deus (caridade)”.
A Fé pode crescer através da prática da oração (sempre com a ajuda da graça) até culminar na plenitude da certeza, que é a vida contemplativa.
“A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível.” (Hb 11, 1.3)
“O que existia antes do que existe?”
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