O Papa não tem porque pedir desculpas

Reações às palavras do Papa sobre o mundo indígena durante a sua recente viagem ao Brasil nasceram, como sempre, da falta de conhecimento do próprio discurso do pontífice e do seu contexto. Isto é normal quando não se lê o documento.

Segundo muito bem disse o Cardeal Júlio Terrazas Sandoval, CSSR, arcebispo de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), a instrumentalização desse trecho do discurso do Papa «se converte em matéria para confundir e para desqualificar qual foi a mensagem, e também, lamentamos, para insultar a pessoa».

O cardeal afirmou que as críticas desconsideram o fato de que o Santo Padre pedia «que todas as culturas, não só as indígenas, se abram a valores de outras culturas, que entrem em diálogo, porque essa é a maneira de enriquecer-se plenamente».

«Esta é a maneira de conhecer-se melhor e é a maneira de projetar identidades que não são objetos de ideologias passageiras mas identidades que partem da própria vida», disse Dom Terrazas Sandoval.

De fato, o Papa afirmava em seu discurso que «as autênticas culturas não estão fechadas em si mesmas nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas; ainda mais: buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e no diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, na qual se repete sempre a diversidade das expressões e de sua realização cultural concreta».

«Em última instância –prossegue o pontífice–, só a verdade unifica e sua prova é o amor. Por isso Cristo, sendo realmente o Logos encarnado, “o amor até o extremo”, não é alheio a cultura alguma nem a nenhuma pessoa, pelo contrário, a resposta desejada no coração das culturas é o que lhes dá sua identidade última, unindo a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo todos ao crescimento na verdadeira humanização, no autêntico progresso. O Verbo de Deus, fazendo-se carne em Jesus Cristo, se fez também história e cultura».

É preciso dizer, isso sim, que a Igreja foi defensora incansável dos indígenas, e isso explica por que, ao contrário da América do Norte, onde os indígenas quase desapareceram, nossos povos são mestiços, e por que, em países como o México, Guatemala, Equador, Peru e Bolívia se conserva uma imensa população indígena.

A responsabilidade do drama da controversa conquista e da colônia, na América Latina, não recai sobre a Igreja, mas sobre outros atores.

A polêmica desatada e os ataques lançados são injustos, sem base histórica, e sem uma leitura atenta do discurso de Bento XVI.
Sendo assim, caro Hugo Chávez, o Papa não tem porque pedir desculpas, mas você sim.

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