A Missa e o Cordeiro imolado

Este post nasceu inspirado no livro “O Banquete do Cordeiro – a Missa segundo um convertido” (Scott Hahn – Edições Loyola) e é dedicado em homenagem a Henrique Saint’Clair, ex-protestante convertido ao catolicismo através de uma pequena ajuda deste blog.

Desejo explicar de forma muito breve e direta o sentido e a importância da Liturgia Eucarística para o católico, e consequentemente o motivo pelo qual o verdadeiro católico não é um “cego em uma religião inventada”, mas sim um membro da Igreja militante de Cristo que, por ser milenar, guarda as tradições dos primeiros cristãos.

O que veremos ao longo do texto é de que forma o sacrifício da Páscoa do povo de israel (o povo escolhido) está intimamente ligado à Páscoa católica e porque a Missa se conserva da mesma forma desde os primeiros cristãos. O assunto tratado aqui existe desde o primeiro século depois de Cristo, mas Scott Hahn só descobriu o sentido do seu estudo protestante depois que ele participou da Missa pela primeira vez (os relatos estão no livro supracitado).

Para o povo de israel, o cordeiro era uma forma de sacrifício. O sacrifício é uma das formas mais primitivas de adoração. Em Gn 4, 3-4 vemos o relato do primeiro exemplo registrado de uma oferenda de sacrifício. Também podemos encontrar relatos de holocaustos semelhantes oferecidos por Noé (Gn 8, 20-21), Abraão (Gn 15, 8-10; 22-13), Jacó (Gn 46, 1) e outros. Os patriarcas estavam sempre construindo altares, que serviam primordialmente para sacrifícios.

Entre os sacrifícios de Gênesis, dois merecem destaque:

  • O sacrifício de Melquisedec (Gn 14, 18-20): 1) porque ele era sacerdote e rei, combinação curiosa no Antigo Testamento, mas que depois também foi aplicada a Jesus, 2) porque o sacrifício dele não envolveu animal algum, ele ofereceu pão e vinho, como Jesus na Última Ceia, quando instituiu a Eucaristia, 3) o sacrifício terminou com uma bênção sobre Abraão.
  • O sacrifício de Abraão e Isaac (Gn 22): 1) porque foi realizado nas terras de Moriá, local que a tradição israelita identifica como local do futuro templo de Jerusalém (2Cr 3,1), 2) porque Deus o chamou para fazer um sacrifício definitivo, 3) o filho Único seria sacrificado e para isso, levou morro acima a madeira para seu sacrifício, que foi consumado em uma colina de Jerusalém. 4) porque Mt 1, 1 identifica Jesus com Isaac ao dizer que ele é “filho de Abraão”, 5) Abrão pronuncia palavras proféticas: “Deus providenciará o Cordeiro para o holocausto” (Gn 22, 8 )

E que significado tinham todas essas oferendas?

  1. reconhecimento da soberania de Deus sobre a criação (Sl 24,1);
  2. Um ato de agradecimento (Sl 116, 12);
  3. Algumas vezes para ratificar um acordo (Gn 21, 22-32);
  4. um ato de rennúncia e tristeza. O que oferecia o sacrifício reconhecia que seus pecados faziam-no merecer a morte; em lugar de sua vida, oferecia a do animal.
Mas na história do povo de israel, o principal sacrifício foi a Páscoa (Ex 12, 1-23). A Páscoa foi um ato de rendenção, um resgate.
Mais tarde, com a construção do templo de Jerusalém, Israel passou a oferecer os sacrifícios cotidianos em ambiente majestoso. O templo foi construído no local onde Melquisedec ofereceu pão e vinho, Abraão, seu filho, e onde Deus fez o juramento de salvar todas as nações. O templo foi destruído pelos romanos anos mais tarde.


O sacrifício não era um ritual vazio, embora o holocausto, por si só, não fosse suficiente, pois Deus exigia um sacrifício interior: “o sacrifício que Deus quer é um espírito contrito” Sl 51, 19. O profeta Oséias relata a vontade divina: “É o amor que me agrada, não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, eu o prefiro aos holocaustos” Os 6,6.


(colocando parênteses aqui, para fazer um breve comentário)
Repare que o sacrifício ao qual a Bíblia se refere é o sacrifício de animais do povo de israel, pois este é o contexto dos autores sagrados. Neste ponto, os protestantes costumam se confundir e utilizar estes versículos para criticar o ensinamento católico de que não há salvação pela fé se não houver obras. Mas as boas obras são feitas justamente para agradar a Deus por amor e são consequências da verdadeira fé, posta em prática.
Aliás, este ensinamento é biblicamente respaldado: São Paulo manda que “se façam ricos em boas obras” 1Tim 6,18;. Deus diz que irá “retribuir a cada um segundo suas obras” Rm 2, 6, pois “o homem é justificado pelas obras e pela fé” Tg 2, 24
Afinal, se não fossem necessárias boas obras, mas somente a fé, acaba-se afirmando que uma pessoa pode levar uma vida de pecado, bastando ter fé para ser salva. No entanto, São Paulo nos adverte: “Que diremos então? Que devemos permanecer no pecado a fim de que a graça atinja sua plenitude? De modo algum!” Rm 6, 1-2.
(retirando parênteses aqui, e retornando ao tema central)

Contudo, a obrigação de oferecer sacrifícios foi mantida. Sabemos que Jesus celebrava a Páscoa todos os anos. Comer o cordeiro era o único jeito de o judeu fiel renovar a aliança com Deus, e Jesus era um judeu fiel. Mas a importância da Páscoa na vida de Jesus foi mais que ritual, foi fundamental para sua missão, conforme as escrituras:
  • nenhum dos ossos de Jesus foi quebrado (Jo 19, 36; Ex 12, 46)
  • fixaram uma esponja embebida em vinagre na ponta de um ramo de hissopo (Jo 19, 29; Ex 12, 22) – hissopo era o ramo preceituado pela Lei pra borrifar o sangue do cordeiro na Páscoa.
  • ao falar das vestes de Jesus na hora da crucificação, João usa os termos exatos para os paramentos que o sumo sacerdote usava quando oferecia sacrifícios como o cordero da Páscoa.


Concluimos então, que no novo e definitivo sacrifício da Páscoa, Jesus é sacerdote e também vítima. Isso se confirma da Última Ceia, onde Jesus usa a linguagem sacerdotal de sacrifício, até quando se descreve como vítima: “Isto é o meu corpo dado por vós… Esta taça é a nova Aliança em meu sangue derramado por vós” (Lc 22, 19-20)


Pois bem, sabemos que Jesus é o cordeiro imolado na Páscoa, selando uma nova e definitiva aliança. Mas então, como devemos celebrar nossa Páscoa? São Paulo nos dá a resposta: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos pois a festa… com pães sem fermento: na pureza e na verdade” 1Cor 5, 7-8. Nosso cordeiro pascal é, então, pão sem fermento. Nossa festa é a missa! 1Cor 11, 23-32
Esse sacrifício único, oferecemos na missa com Jesus, conforme as orações da missa:
Nós vos oferecemos o seu Corpo e Sangue, sacrifício do vosso agrado e salvação do mundo inteiro. Olhais com bondade o sacrifício que destes à vossa Igreja (Oração Eucarística IV)
Recebei, ó Pai, esta oferenda, como recebeste a oferta de Abel, o sacrifício de Abraão e os dons de Melquisedec. Nós vos suplicamos que ela seja levada à vossa presença (Oração Eucarística I)


Enfim, como aconteceu com a antiga aliança, acontece com a nova. Quem deseja expressar a aliança com Deus, ratificar a aliança com Deus, renovar a aliança com Deus, tem de comer do Cordeiro; o Cordeiro Pascal que é nosso pão sem fermento. “Aquele que come a minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna” Jo 6,54
A necessidade primordial que o homem tem de adorar a Deus sempre se expressa no sacrifício: a adoração é simultaneamente ato de louvor, expiação, dádiva, aliança e ação de graças (eucaristia). O sacrifício é uma necessidade do coração humano. Mas antes de Cristo, nenhum sacrifício era adequado: “Como retribuir ao Senhor todo o bem que me fez?” Sl 116, 12. Na verdade como? “Erquerei a taça da vitória e chamarei o Senhor pelo seu nome” Sl 116, 13


Por tudo isto a Missa é essencial para a vida cristã. Publicarei futuramente mais alguns detalhes, com a ajuda do livro de Scott Hahn,  de como os primeiros cristãos documentavam a organização da Missa, que conserva seu formato até os dias de hoje.


Sou feliz por ser católico e, assim como faziam os primeiros cristãos, comer do Cordeiro Pascal, um verdadeiro tesouro deixado por Cristo a sua Igreja!
Louvado seja Deus!
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2 Respostas

  1. Paz e Bem, Daniel

    O texto foi edificante… A Santa Missa nos remete aos tempos apostólicos, passando pelos pais da Santa Igreja…Essa é uma beleza do Cristianismo!

    Santo Inácio de Antioquia (67-110 d.c.) que foi o terceiro sucessor de S. Pedro na igreja da Síria, discípulo de S. João e que conheceu pessoalmente o Apóstolo Paulo, diz sobre a grandeza que é a Eucaristia para a Missa:

    “Renovai-vos pela Fé, que é a Carne do Senhor, e pela caridade, que é o seu Sangue” (Carta aos Tralianos)

    “Empenhai-vos, por conseguinte, em ter uma só Eucaristia. Pois uma só é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só o cálice na unidade de seu sangue”
    (Carta aos Filadélfios)

    Sempre foi e será, a Eucaristia, o centro de todas as missas, para que nos sirvamos do Cordeiro como alimento para a vida eterna, pois n’Ele se encerram todos os bens espirituais.

    Nas Apologias de são Justino Mártir, na Didaquê (primeiro manual catequético-litúrgico dos finais do sec I), e outros pais da Igreja, podemos ver que a Santa Missa é a unidade da Igreja, nossa unidade com Cristo e com o “Bispo”…isso nos faz católicos.

    Obrigado pelo excelente texto!

    In Corde Iesus, semper!

  2. Paz e Bem!!!

    Sem dúvida alguma a Santa Missa é o unico sacrificio de Cristo na cruz.. Em cada Santa Missa o sacrificio de Cristo na cruz, é atualizado de maneira incruenta ou seja sem derramamento de sangue. Pela Palavra de Cristo na ultima ceia pronunciada pelo Sacerdote legitimamente ordenado na sucessão apostólica e pela ação do Espirito Santo, o pão e o vinho se tornam Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Pão tem aparência de pão mas não é mais pão e o Corpo de Jesus e o Vinho tem aparência de Vinho, mas não é mais vinho é o Sangue de Cristo.
    Na Eucaristia, não adoramos o Pão e o Vinho, mas sim o Corpo e Sangue de Cristo nas aparências de Pão e Vinho.

    Graças e Louvores sejam dadas a cada momento…
    Ao Santíssimo e Divinissimo sacramento!!!

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